Caçadora e Guerra

CAÇADORA E O DEUS DA GUERRA, A


por Carlos Abraham Duarte


Naquela noite, em Sunnydale, Buffy Summers sonhou.
Estava a pé no meio de um deserto, um vasto pedregal de calhaus miúdos que se estendia até o horizonte. Era meio-dia e o sol jorrava na planície pedregosa. E, bem longe, no horizonte recuado, alteava-se uma cadeia de montanhas com os picos cobertos de neve. Buffy sorriu para o céu azul onde vogavam fantasmagóricas massas brancas de nuvens, e pôs-se a caminho. Estava só, inteiramente só. Apesar disso, ou por causa disso, sentia-se feliz.
Foi quando viu o homem. Ele se achava parado ali, de costas para a Caçadora, com os pés afastados plantados firmemente no chão e brandindo no ar uma enorme espada de aço reluzente. Tomando coragem, Buffy gritou:
- Alô, você! Andou esperando por mim?
O desconhecido voltou-se e Buffy o examinou com o olhar; o que tinha na sua frente era a figura de um homem alto, de físico avantajado, vestido com roupas de couro preto tacheadas e calçado com longas botas polidas. Buffy não sabia dizer se ele era uma criatura humana ou um demônio. A barba rala tipo pera e os cabelos compridos e revoltos eram do mais profundo negrume. Em seu rosto moreno estranhamente juvenil havia um certo ar soturno; e, embora ele não parecesse mau, havia mais do que uma sugestão de algo sinistro em seus traços rústicos mas atraentes, realçado pelos profundos olhos negros selvagemente luminosos. Seus braços musculosos manejavam a pesada espada com habilidade e uma graça quase poética.
- Não tenho medo de você - disse Buffy, impassível.
Subitamente, um tropel de cavalos começou a fazer a terra tremer. Buffy pulou de susto. Esquadrinhou com o olhar o deserto a seu redor, sem ver nada. Parecia-lhe que um invisível exército de gigantes cavalgava em sua direção. O monstruoso tropel crescia cada vez mais e abalava céus e terra. As nuvens dançavam, e no meio dos desolados e distantes picos nevados reverberava um som de trovão que sugeria rodas de titânicos carros de combate que sacudiam a terra com um estrondo terrível.
- Tá legal, Cavaleiro Negro - exclamou Buffy. - Como é que a gente sai desse lugar maluco?
E eis que, de repente, Buffy se viu em pé sobre um penhasco. A grande massa de rocha escarpada erguia-se como uma sentinela poderosa e imóvel na beira do deserto. Agora Buffy podia enxergar uma porção maior da estranha região onde estava, e ela observou que, em cada lado do enorme penhasco, imperavam condições diferentes. À esquerda estendia-se a planície desértica recamada de seixos que a Caçadora acabara de deixar. À direita havia uma confusão de dunas de areia e grandes lapas de rochas nuas a perder de vista, sob um sol inclemente e um céu sem nuvens. Do alto de seu posto de observação, Buffy olhava perplexa; como uma grande maré de devastação varrendo tudo à sua frente, o maior exército de todos os tempos invadiu as terras áridas daquela paisagem primitiva, rapidamente engolindo o deserto de todos os lados à medida em que avançava, marchando com um barulho ensurdecedor semelhante ao de cem mil trovões estourando ao mesmo tempo. Buffy jamais vira tantos guerreiros e soldados, homens de muitas terras e muitas eras: da Índia védica e do Egito antigo, da Grécia e da Mesopotâmia; gregos antigos, legionários romanos, bárbaros godos, vândalos e hunos; cavaleiros medievais, divisões Panzer e soldados americanos da II Grande Guerra. Ali estavam os exércitos de Alexandre e de Júlio César, de Gengis Khan e de Hitler. E um número incalculável de outros combatentes de vários povos e épocas da história humana que ela sequer conhecia ou saberia identificar. Uns em carros de guerra, outros em cavalos, revestidos de cobre, bronze e ouro, ferro e aço, os guerreiros movimentavam-se estrondosamente em longas linhas ordenadas, e Buffy notou que foram assumindo uma formação mais cerrada, reunindo-se em círculos concêntricos ao redor do rochedo onde ela se achava. Pareceu-lhe estar olhando para um imenso oceano de metal fundido que rebrilhava aos raios do sol.
- Mas o que é que eu tenho a ver com tudo isso?
Um toque no ombro fez Buffy voltar a cabeça. Em pé a seu lado estava o musculoso espadachim de cavanhaque e cabeleira negra que a caça-vampiros encontrara no reg, o deserto de pedregulho. Ele fez um gesto na direção do mar reluzente de aço que parecia cobrir o deserto de extremo a extremo, varrendo a distância com o braço estendido, enquanto seus olhos permaneciam fixos sobre a figura pequena e esbelta da caça-vampiros.
- Este é o seu exército, princesa. - A voz dele era surpreendentemente suave, embora cheia de crueldade.
Olhando para baixo, Buffy viu o deserto se enchendo lentamente de sangue, como a água que enche pouco a pouco uma banheira, e o exército dos exércitos com os corpos de cavalaria, de blindados e até elefantes de guerra pisando aquele sangue que subia cada vez mais alto... Buffy sentiu náuseas. A onda rubra que aparecia à sua frente continuou avançando até alcançar as bordas do penhasco e logo engolfou a escarpa numa enxurrada de sangue que escorria e engolia e engolia. Buffy começou a correr, queria escapar daquele cenário maldito. Seus pés estavam ensopados de sangue. De repente parou. Sua visão turvou-se. Tudo à sua volta parecia encoberto por uma névoa vermelha... como um véu sangrento... vermelho, tudo vermelho... uma vermelhidão sem fim...
A luz avermelhada do sol poente refletia-se na lâmina azulada da espada que Buffy empunhava com ambas as mãos, pronta para se defender. Seus olhos inquietos percorriam o campo de batalha iluminado pelo flamejante pôr-do-sol, procurando eventuais inimigos, mas nada se mexia através de todos aqueles quilômetros de planalto coalhado de corpos de guerreiros mortos. Um cenário dantesco. O grande disco vermelho brilhante do sol, baixo no horizonte, derramava torrentes de uma luminosidade espectral sobre o terreno rochoso e estéril encharcado de sangue humano. E coberto pelos destroços de guerra: armaduras despedaçadas, lanças e espadas quebradas, capacetes e escudos amassados. Aqui e ali havia os restos de uma carruagem destruída. Lançando um rápido olhar para si mesma, Buffy notou que usava uma espécie de armadura de couro envernizado com peitoral de bronze, braceletes nos braços e nos pulsos, e botas de couro macias que chegavam à altura dos joelhos. A lâmina da espada que segurava tinha quase um metro de comprimento.
"Sou uma amazona", pensou Buffy, toda confusa. Ela perambulava pelo silencioso campo de batalha, por entre os mortos ensangüentados e carbonizados - tributo à depravação humana - como uma personificação da Morte vagando pelas ruínas de um mundo destruído, pós-apocalíptico. Corpos queimados de homens e cavalos jaziam na rocha nua daquele planalto selvagem, testemunhas mudas do Armagedon.
De repente, uma terrível aparição surgiu diante de Buffy. Era um jovem alto, forte, vestido com uma malha protetora de metal manchada com placas purpúreas de sangue coagulado, segurando uma formidável espada no grande punho arranhado em atitude ameaçadora. O capacete de aço com pontas mostrava as marcas de golpes violentos. O rosto era uma máscara de puro ódio irradiando um furor insano. Parecia um endemoniado saído diretamente das infernais hostes do Tártaros. Apesar disso, Buffy reconheceu aquele rosto, que já fora belo, e sentiu o sangue gelar.
- Riley!
Com as mãos agarradas ao cabo da espada, Buffy recuou.
- Portadora da destruição! - berrou o ensandecido Riley, os olhos chamejantes como duas labaredas de um azul real vivo. - Guerreira, é o que você se diz, assassina é o que você é. Vamos! Lute, cadela! Somente um de nós continuará vivo.
A Caçadora ergueu sua espada, segura com as duas mãos, e apontou a lâmina afiada na direção do grandalhão de armadura de aço.
- Para trás! Afaste-se! - exclamou Buffy, gritando o mais alto que podia. - Não quero matar você...
- Vá para Tártaros!
Riley urrou e deu um salto para a frente, numa fúria absolutamente cega, com a espada descrevendo um relampejante arco metálico. Mas a espada de Buffy aparou o golpe, e as duas lâminas colidiram soltando faíscas no ar. Buffy lutava por sua vida. Tentou apenas defender-se, mas o colérico Riley golpeava seguidamente com sua poderosa arma, e os golpes eram cada vez mais perigosos. Uma fúria guerreira foi crescendo dentro dela, os instintos primordiais de uma caça-vampiros impelindo-a a se lançar contra o antagonista. O ódio tomava conta de sua alma. Com uma força descomunal, Buffy desfechou um golpe terrível que acertou em cheio o peito do adversário, na altura do coração. A lâmina afiada azul-prateada rasgou a malha de aço, os ossos e o coração de Riley. Com um grito cortante de agonia, olhos vidrados, o robusto guerreiro tombou numa poça de sangue de um vermelho carmesim, morto aos pés da esguia Caçadora de cabelos louros.
- Riley! Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Buffy caiu de joelhos ao lado do corpo inerte do ex-namorado convertido em espadachim. Sentia-se tão derrotada, nauseada, desesperada. O combate trouxe à tona o seu lado obscuro - o lado negro das caça-vampiros, a treva dentro de si. Sabia que nunca mais seria ela mesma, a linha divisória não mais existia, o limiar fora transposto. Ela matara um ser humano. Matara Riley Finn. Então, como que realizando algum cruento ritual atávico, mergulhou as mãos no sangue de Riley e o espalhou pelo rosto, pintando-se com o sangue do morto. Era uma reversão à primitividade, que evocava batidas de pés nus e o rufo dos atabaques.
De repente Buffy levantou os olhos. Diante dela, trajado de couro negro, estava um homem em pé. Era o guerreiro musculoso de cavanhaque e espessa cabeleira negra que Buffy encontrara no deserto pedregoso. Ele se abaixou para pegar as mãos dela e ajudá-la a ficar de pé, ao mesmo tempo que seus olhos negros pareciam queimar sobre a moça. - Bravo, princesa! - ele exclamou suavemente, a satisfação clara em sua voz. - Matou seu primeiro inimigo em combate, seu primeiro inimigo humano. É uma verdadeira guerreira. Agora, deve beber o sangue dele.
Ele lhe apresentou, à guisa de caneca, um crânio humano cujas partes acima dos supercílios haviam sido serradas e o interior, dourado. Estava cheio de um líquido vermelho, de um vermelho vivo, com espuma vermelha, espuma de mau cheiro. Buffy sabia que aquele era o sangue de Riley misturado com cerveja - e ficou paralisada. A voz do homem de preto soou forte e peremptória.
- Beba o sangue do inimigo abatido, como convém a uma princesa guerreira. Hesitante, ela tomou em suas mãos a macabra taça cheia daquela beberagem obscena. Então, como que impelida por um espírito maligno, levou-a aos lábios e bebeu, bebeu e sorveu até a última gota. Ah, foi doce e selvagem, exacerbou o ardor guerreiro da caça-vampiros. A dor tinha passado; a confusão tinha passado. A natureza selvagem da Caçadora, livre, além do bem e do mal, se manifestava com toda a ferocidade que a caracterizava. E, acima de tudo aquilo, a voz do homem de preto soava como ferro. - Você logo se acostumará a matar. Não haverá mais dor ou remorso, só prazer. Farei de você um terror dos homens e o flagelo de todas as nações da Terra. E o mundo inteiro se curvará a seus pés.
Nãããooo!!!
Buffy despertou sobressaltada e aos gritos, em sua própria cama, em seu próprio quarto. Em sua casa, em Sunnydale. Estava escuro quando abriu os olhos. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava 00:05 h em números suavemente iluminados. Buffy sentou-se empertigada na cama, tremendo, chorando baixinho. A porta se abriu. Alguém acendeu a luz. Buffy virou-se e olhou na direção da porta do quarto. Willow, Tara e Dawn estavam paradas à sua frente, com cara de sono, os cabelos desgrenhados e os olhos arregalados.
As três pareciam genuinamente preocupadas. Aproximaram-se devagar, parando ao lado dela. Willow sentou-se na cama ao lado de Buffy e colocou a mão em seu ombro num gesto terno.
- Buffy, você está bem? - ela quis saber. Usava um robe violeta sobre a camisola cor de rosa muito fina e transparente.
Buffy assentiu com a cabeça. Levantou-se e andou lentamente pelo aposento até a penteadeira. Apanhou o robe azul em cima do móvel e vestiu-o.
- Ouvimos seus gritos - comentou Dawn laconicamente. Seus imensos olhos azuis pareciam um par de safiras brilhando.
- Tive um pesadelo - respondeu Buffy, olhando para ela. Em seguida olhou para Willow e finalmente para Tara. - Eu estava num deserto...
Contou a elas o que lembrava daquele sonho desesperador e impressionante. Um sonho sem precedentes com a presença, em muitos momentos, de um sombrio guerreiro que, de alguma maneira, exerceu um forte poder sobre a Caçadora.
- ...Alto, moreno, bonito, todo vestido de couro preto, parecendo metaleiro, só que carregava uma espada. De repente, a terra tremeu. Um número imenso, mas imenso mesmo, de soldados de mil povos e épocas diferentes cobriu todo o deserto. Quando marchavam... era como um trovão, toda a terra tremia. Até aí, tudo bem. Foi quando eu vi o deserto se encher de sangue, virar um mar de sangue que submergiu a Terra inteira... Eu corri, e a torrente de sangue estava correndo atrás de mim! E meus pés estavam pisando aquele sangue... Horrível, simplesmente horrível!
- Nós compreendemos - disse Tara, procurando alisar com os dedos seu cabelo em desalinho.
- Um sonho ruim e tanto - concordou Dawn.
- Sanguinolento - endossou Willow.
Entrementes, imersa em seu pesadelo particular, Buffy prosseguia. - ... o horror dos horrores: cadáveres, cadáveres e mais cadáveres a perder de vista, esturricados, ensangüentados, amontoados uns sobre os outros... Milhões deles. Guerreiros todos eles. Olhei para mim mesma e verifiquei que eu também era uma guerreira, estava usando uma armadura de couro e trazia uma espada nas mãos. Então, ele apareceu... Riley estava no meu sonho, todo encouraçado como um cavaleiro medieval. Ele era o inimigo. Ele golpeou primeiro e eu tive que me defender... Eu o matei! Fiz coisas hediondas, besuntei a cara toda com sangue... Depois o espadachim vestido de metaleiro me induziu a beber ritualmente o sangue do Riley morto, misturado com cerveja, numa "caveira-caneca", uma caveira de verdade dourada por dentro! Senti o gosto do sangue com álcool... Argh!
Dawn fez uma careta.
- Que nojo! - disse ela.
- Pois é. Já tô até vendo, o Spike rolando no chão de tanto rir...
- Meu Deus, Buffy, você sonhou que era a Xena ou a Condessa Drácula?
Buffy mediu a irmã caçula de alto a baixo com o olhar e dirigiu-se para a janela.
- Isso não tem nada a ver com vampirismo, Dawn - interveio Tara. - É que antigamente havia povos bárbaros que obrigavam seus guerreiros a beber sangue dos inimigos mortos em batalha. Humanos, nada mais, nada menos!
- Tá brincando!?
- Não, é sério mesmo, Dawn. Entre os citas, que há 2.500 anos habitavam o que é hoje o sul da Rússia, quando um guerreiro matava seu primeiro inimigo, ele bebia seu sangue. O historiador grego Heródoto documentou isso em seus textos. Outro costume praticado pelos citas que deixava os antigos gregos de cabelos em pé era o uso dos crânios dos seus piores inimigos como taças para beber vinho. Os pobres limitavam-se a enrolar o exterior num pedaço de couro de boi, já os nobres mandavam dourar o interior - exatamente como no sonho da Buffy!
- Vai ver, foi por isso que o "guerreiro-metaleiro" no meu sonho me chamou de princesa - retrucou a caça-vampiros com uma ponta de sarcasmo.
- Os vikings também utilizavam os crânios limpos de seus inimigos como canecas para beber cerveja - lembrou Willow. - Por sinal, a palavra "skol", que é uma expressão de brinde em dinamarquês, norueguês e sueco, significava originalmente "caveira". Sinistro, né?
Dawn suspirou. - Os homens, às vezes, sabem ser muito piores do que qualquer vampiro ou demônio.
- Eu que o diga - retrucou Willow. Ainda guardava viva a lembrança dos fantasmas dos índios da tribo Shumach, os habitantes originais de Sunnydale, exterminados pelos colonos brancos, juntamente com um número enorme de tribos e nações ameríndias. Pensou em sua família, seus avós judeus da Polônia, vítimas indefesas da sanha selvagem dos nazistas, assim como o foram milhões de judeus e ciganos na Europa. Mentalmente concordou: o maior monstro é o Homem, que mata os de sua própria espécie, freqüentemente com requintes de crueldade. - Buffy, quem sabe você ouviu ou leu a respeito dos hábitos e costumes dos citas, vikings e congêneres, e inconscientemente você ficou impressionada por causa disso. Esqueceu tudo e agora teve esse pesadelo. É natural, depois do trauma pelo qual você passou nos últimos meses: morte, ressurreição...
Willow calou-se. No fundo, não conseguia livrar-se do sentimento de culpa pelo sofrimento da amiga, pois fora sua poderosa magia anti-natural que trouxera a Caçadora morta de volta ao mundo dos vivos - arrebatando a alma de Buffy da dimensão extrafísica pacífica e paradisíaca onde ela se achava. - , mesmo sabendo dos riscos que isto acarretaria.
Buffy se voltou com os braços cruzados, abraçando a si mesma como se sentisse frio, e se encostou na janela. Disse: - É como se o pesadelo continuasse, estando acordada. Não consigo tirar da mente o cara vestido de couro negro e metal, o espadachim desconhecido. Ele queria que eu matasse. Prometeu que faria de mim uma versão feminina de Átila, o Huno, e que todo o mundo me temeria. Parecia uma espécie de deus... um deus das trevas, da guerra. - Ela olhou para Dawn, atordoada. Olhou para Willow e Tara. - Algo em mim veio à tona... Algo primitivo, brutal... o lado negro da Caçadora!
As três garotas se entreolharam, como quem diz "oh oh".
- Não fique com a cabeça mergulhada nesse pesadelo nojento - pediu Dawn, virando para Buffy os olhos azul-safira de gata siamesa. - Sonhos não são nada, é tudo "viagem" do inconsciente.
Buffy deu uma risada amarga. - Você não pensaria assim se o espírito de uma enfurecida caça-vampiros pré-histórica tivesse tentado matá-la e aos seus amigos, nos sonhos, como aconteceu comigo, com a Willow, o Xander e o Giles.
Willow pensou um pouco. Depois, disse:
- No Talmud hebraico está escrito: "Um sonho não interpretado é como uma carta que não se lê."
- Legal, Freud certamente teve a quem puxar - Buffy respondeu ironicamente, indo sentar-se na cama.
Willow apertou os olhos por um instante.
- Sabe, Buffy, costumamos apresentar facetas obscuras até para nós mesmos - ela respondeu com a voz embaraçada. - Instintos agressivos, os maiores medos de cada um...
- Todos carregamos nossa "metade negra", que passamos a vida inteira procurando esconder - acrescentou Tara. - Mas é como sentar-se sobre um vulcão, que permanece inativo por muito tempo, até que um dia simplesmente explode.
- Sua "metade Caim" reprimida emergiu em seu sonho... e você acordou angustiada, só isso - resumiu Willow.
- Porque fui ressuscitada com magia - Buffy respondeu com voz apática. - Magia da pesada.
- Acho que a Tara e a Willow têm razão - opinou Dawn, que não fazia segredo da admiração que sentia pelo par de jovens bruxas. - Você precisa de um tempo pra se adaptar de novo a uma vida normal, depois de passar quatro meses... hã... morta e enterrada.
- É, tô me sentindo igualzinha ao Sr. Spock em "Star Trek IV/ The Voyage Home".
- Experimente relaxar usando a técnica do latihan que o Giles nos ensinou - sugeriu Tara. - Ou mentalize uma Chama Violeta à sua volta, dentro de você, para transmutar suas bioenergias de negativas em positivas. Tudo vai ficar bem.
- Ora, Buffy! - Willow riu zombeteiramente. - Posso fazê-la esquecer o sonho mau e todo o restante, fácil,fácil. - Os olhos da bruxa ruiva estavam brilhando. - Conheço um feitiço...
- Willow! - exclamou Tara em tom de reprovação. - Já se esqueceu do que conversamos?
- Não... não fazer feitiços por um mês... por uma semana? - tartamudeou a ruivinha, sentindo-se envergonhada. O namoro de Willow e Tara não ia nada bem, porquanto Willow desenvolvera dependência do uso de magia, tornando-se uma viciada. Como o vício das drogas. Pior ainda: seus poderes extravasavam a "mera" bruxaria Wicca e beiravam perigosamente a magia negra, para desassossego de seus amigos da "Scooby gang". Ninguém se esquecia daquele odioso demônio incorpóreo criado como "contrapeso" pelo ímpio e cruento ritual pagão que ressuscitara Buffy.
- OK. OK. Foi mal, gente - desculpou-se Willow. E, virando-se para Buffy, indagou, solícita: - Você não quer um chazinho de ervas? Erva-cidreira, erva-doce, camomila, casca de maçã... Tudo super-natural, sem magia....
- Obrigada, Will, mas vou dispensar - respondeu Buffy enquanto se levantava. Olhou para o relógio digital, que indicava 01:00 h da madrugada. - Acho bom a gente encerrar a "sessão terapêutica" da meia-noite. Vocês precisam dormir, e eu quero ficar a sós comigo mesma.
As três se levantaram e ficaram de pé, à volta da Buffy. Era evidente que relutavam em deixar a amiga sozinha em seu quarto.
- Você vai ficar bem? - questionou Dawn.
- Não se preocupe, Dawnie, que o pior já passou - respondeu Buffy alegremente. Ela parecia muito calma, segura de si. - Afinal, por pior que tenha sido, foi somente um sonho. E o que são sonhos?
Dawn, Willow e Tara ficaram estupefatas pela súbita mudança que se operara no espírito da caça-vampiros.
- Interessante, não? - pensou Tara em voz alta. - Os povos antigos, entre os quais os egípcios e os gregos, acreditavam que os sonhos correspondiam a mensagens enviadas pelos deuses às mentes dos mortais adormecidos.
Buffy estudou os olhos dela. Olhos cinza-azulados, meio oblíquos e misteriosos.
- Tá insinuando que algum deus mitológico andou brincando de Freddy Krueger no hemisfério direito do meu cérebro?
- Não, longe disso.
- Segundo o Talmud, o sonho é muitas vezes um meio de comunicação de Deus com as pessoas - rebateu Willow. - Isto é, nem sempre... só às vezes... Aliás, a Gemara diz que, se alguém sonha exatamente o mesmo sonho três vezes, então a coisa é certa por parte de Deus.
- Bem, uma já foi, faltam duas - comentou Dawn timidamente.
- Eu só espero que, na manhã seguinte, não me levante e saia por aí matando meus ex-namorados com uma espada - retrucou Buffy sarcasticamente. - Sorte do Riley, estar caçando demônios nas selvas pra lá da Nicarágua.
Dawn apertou a mão dela. - Aposto que o "metaleiro" bonitão é a chave da interpretação do sonho. Acredite, eu sei. De chave eu entendo. Afinal, já fui "A Chave", lembra?
Buffy não respondeu, continuou segurando fortemente a mão de Dawn. Era tão fácil esquecer-se de que sua irmãzinha, a caçulinha mimada da família Summers - e que, um ano atrás, sequer existia em sua forma humana - , não passava de corporificação da Chave com a qual a insana deusa Glory pretendera abrir o portal proibido para regressar à dimensão infernal de onde fora banida há eons. Uma personificação em carne e sangue, feita com o DNA da própria Buffy, de uma turbilhonante esfera de energia mística, transcósmica, inconcebivelmente velha como o Universo. Assim era Dawn.
A voz de Willow interrompeu as divagações da Caçadora. - Buffy, se tiver outro pesadelo grite, pode gritar que a gente vem correndo, tá?
Buffy sorriu. Colocou as mãos nos ombros de Willow.
- Will, você me conhece há seis anos e tem sido minha melhor amiga. Porisso, não se sinta culpada por ter usado bruxaria para me ressuscitar. Fez o que julgou necessário para defender o bem. Talvez, eu tenha ainda uma missão mística a cumprir neste pobre planeta atormentado, e você foi apenas um instrumento a serviço de forças superiores.
Willow sorriu discretamente. - É, o mundo precisa de Buffy, a Caça-Vampiros. E nós também.
Tara passou um braço por sobre o ombro de Willow e agarrou o pulso de Dawn com a outra mão, puxando-a para si.
- Toque de recolher, meninas - disse, rebocando Willow e Dawn para fora do quarto. Sozinha no quarto, Buffy trancou a porta, tirou o robe e se deitou, deixando a luz acesa. A verdade é que continuava perturbada. Fechou os olhos, procurou relaxar. Não conseguiu. Ficou ali deitada, com os olhos muito abertos à luz branca, forte e sem sombras do quarto, sentindo-se impotente para libertar-se daquele pesadelo, daquele fogo interior que a estava consumindo.
Saiu da cama. Não, não é mais tempo de relaxar, pensou. Vestiu suas roupas "da briga": calça jeans desbotada e camiseta preta, juntamente com uma velha jaqueta de brim por cima. Calçou os sapatos. Escovou os longos cabelos louros.
Refletindo brevemente, Buffy pegou no seu baú de armas um punhal de lâmina ondulada e aparência perigosa, devidamente embainhado. Era um kris malaio, forjado em aço com punho de marfim e bainha de prata. O povo da Malásia atribuía poderes milagrosos a tais armas. Dizia-se que alguns kris tinham poderes para predizer o futuro; outros, na iminência de perigo, saltavam magicamente das bainhas para defenderem seus donos. Bem, este kris certamente não é um deles, pensou Buffy. Enfiou a arma no bolso e apanhou um par de estacas, também. Toda caça-vampiros que se preza tem uma estaca sempre à mão - inda mais em Sunnydale, onde há sempre vampiros sedentos de sangue à espreita em cada esquina, quando anoitece.
O luar velado de bruma inundava a paisagem vista da janela. Buffy apagou a luz. Quando teve certeza de que Dawn, Willow e Tara estavam adormecidas nos respectivos quartos, destrancou a porta e saiu, com o maior silêncio possível, seguiu pé ante pé até o alto da escada. Sem fazer qualquer ruído, desceu um degrau após o outro até chegar ao andar inferior. O brilho luminescente do mostrador do relógio digital era a única iluminação na sala de estar, que estava totalmente às escuras. Eram 02:00 h da madrugada. Buffy franziu a testa. Tinha que sair imediatamente - mesmo sem saber por quê. Ela encaminhou-se com extrema cautela para a porta da frente, destrancou-a e saiu da casa para o gramado vazio e úmido sob o clarão sinistro do luar. A rua estava quieta. Buffy olhou para o céu cinza-escuro. Alguma coisa nas enormes nuvens através das quais a lua derramava sua pálida claridade perturbou-a, se bem que ela não pudesse dizer o quê. Ela respirou fundo e então caminhou a passos largos e firmes para alcançar o cemitério, que ficava bem perto da residência da família Summers. As luzes de rua pareciam archotes acesos em meio à escuridão, com seu desagradável brilho amarelento.

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