Megatrom

OS DIAS MAIS FELIZES DE MEGATROM


por Rita Maria Felix da Silva




Parte 6: Ponto de Fusão

"Após aquele fatídico discurso, algo passou a incomodar cada Decepticon: então, isso era tudo? Nossa vitória sobre um universo inteiro nada mais fora do que um outro pas-so na interminável guerra pessoal de Megatron ... Contra um fantasma?
A partir daquele ponto, passamos a viver desconcertados e afligidos por algo que pensávamos ter abandonado quando o primeiro de nós aprendeu a arte da transforma-ção...Consciência.
É verdade que a propaganda dos extintos Autobots fizera com que as outras espé-cies vissem a nós, Decepticons, como nada mais do que vilões e demônios tecnológicos, todavia a realidade era bem diferente:
Escolhidos entre todos pela Grande Mente, éramos guerreiros e conquistadores: por direito e destino devíamos destruir nossos inimigos e governar o Universo. Porém, Megatron, em sua loucura, havia tranformado a todos nós em meros genocidas. Esse sen-timento corroía nossos circuitos, mas o temor que tínhamos de nosso líder mantinha a to-dos pacíficos e silenciosos.
Contudo, quando se aproximava o Tel-Yonth-Yamath - quando celebramos a oca-sião em que os Criadores deram vida ao primeiro Transfomer - Megatron dirigiu-se a toda Cybertron e denunciou que havia uma trama para destroná-lo.
Todos sabíamos que isto não era verdade, pois, apesar do descontentamento, nin-guém teria coragem de arquitetar contra Megatron. Porém, no que se tornaria uma de nos-sas mais trágicas datas, Megatron cancelou o Tel-Yonth-Yamath e ordenou a prisão e exe-cução de mil dos mais proeminentes Decepticons.
Talvez nosso líder houvesse apenas enlouquecido, vítima daquilo que ele chamava de "felicidade"... De qualquer forma, sabíamos que os Decepticons acusados eram inocen-tes, porém, covardemente, curvamos nossas cabeças, guardamos nosso silêncio e, diante, da rede mundial de vídeo, assistimos a nossos irmãos serem atirados às fornalhas...E grita-rem...E derreterem..."

Parte 7: Ecos e Lamentos

"Maculados por nossa covardia, seguíamos nossa existência.
Foi então que os astrônomos Decepticons descobriram uma nova galáxia.
Esta notícia deixou Megatron eufórico e ele ordenou que se iniciassem os prepa-rativos para uma nova guerra. Toda uma nova galáxia...Bilhões de mundos para saquear e conquistar...Trilhões de vidas para serem extintas...
Temerosos nós obedecemos e a construção de uma nova armada prosseguia cele-remente. Lembro-me de voar pelos céus de Cybertron (abençoado Cybertron, que teu nome nunca seja esquecido...), contemplando as naves que eram montadas ou reformadas, e uma emoção desagradável percorreu minha mente: havia algo de obsceno naquilo tudo, mas eu não sabia definir o que era...
Então, sem saber porque, lembrei-me de Savage - que foi vaporizado por um Au-tobot na Terra, quando tomamos à base de nossos inimigos, e do infeliz Starscream...E preenchi os céus, com um guincho de lamento.
Por essa época, rumores funestos começavam a percorrer o planeta: comentava-se que Megatron só iria deter sua fúria quando toda a vida no Universo, até mesmo nós, esti-vesse extinta...No início, a maioria de nós ria dessa paranóia, mas a imagem dos Decepti-cons injustamente derretendo nas fornalhas ainda feria nossa consciência...E nossos temo-res cresceram...
Então, aconteceu...Cyberton foi pego de surpresa, quando um quinto dos Decepti-cons revoltaram-se e ergueram suas armas contra Megatron. O líder dos rebeldes era meu antigo companheiro Soundwave, o mais forte de nossa espécie, um dos mais notáveis de todos nós. Muitos venceram o medo que tinham de Megatron e se uniram à rebelião. Até hoje lamento não ter feito o mesmo...
Porém, a rebelião provou ser de pouco valia contra o poder de Megatron. Em pou-co tempo, ele esmagou os focos revoltosos e apenas quinhentos rebeldes sobreviveram - ainda que em precário estado - e foram levados às fornalhas. Soundwave estava entre eles e não lamentou, nem implorou - como tantos outros fizeram - enquanto Megatron garga-lhava...
Lembro-me que Soundwave olhou para mim, enquanto derretia, e aquele olhar ainda persegue minha consciência, mesmo hoje, como um fantasma, até o fim de minha existência...
Em memória dele e dos outros que se foram, emiti meu mais funesto guincho. Megatron percebeu isso, mas não deu nenhuma importância, e ordenou que os trabalhos para a nova frota recomeçassem.
Logo estávamos percorrendo o Cosmo novamente, seguindo nosso enlouquecido líder, nossas naves maculando o Universo...
Breve alcançamos a nova galáxia e trouxemos morte e carnificina a ela. Havia tantas novas espécies naquele lugar, algumas incrivelmente antigas, notáveis e sábias - porém, pacíficas demais, tolas e hospitaleiras demais, para resistirem ao nosso poder...Nós extinguimos a maioria delas, fizemos de escravos os poucos que sobreviveram e roubamos sua riqueza e recursos...
Megatron permanecia em êxtase, maravilhado por nossas novas conquistas, imer-so naquela coisa monstruosa que ele chamava de "felicidade". Os outros Decepticons mantinham-se silenciosos, em sombria obediência a nosso líder...
Quanto a mim, eu pensava em Starscream, Savage, Soundwave e todos os que ha-viam morrido, Decepticons ou não, e, não me envergonho de dizer, nos próprios Autobots também... Recordei-me da lenda que me contaram, nos primeiros tempos de minha exis-tência, sobre uma época dourada, em que Decepticons e Autobots seriam novamente uma só raça, e juntos e em paz, construiriam um universo melhor para todos os seres...E a Grande Mente se orgulharia de nós...
Pensei em todas essas coisas e em como o sonho de dominação Decepticon havia se tornado sombrio e degenerado para algo que me assustava... E, apenas para mim mes-mo, guinchei em lamento...."

Parte 8: A Epifania

Para a maioria de meu povo, o que aconteceu em seguida foi o evento mais im-portante de toda a História de Cybertron.
Havíamos retornado da guerra; os computadores de Megatron esquadrinhavam vo-razmente o firmamento, em busca de novos mundos; e os Decepticons viviam uma vida sombria, curvados pelo medo e vergonha.
Lembro-me que eu revisava meus bancos de memória, especificamente o período em que estivemos exilados na Terra, buscando por algo que eu não sabia o que era, uma informação importante que sentia ter sido perdida.
Eu começava a questionar minha sanidade, quando os céus de Cybertron foram preenchidos por uma nuvem luminosa, cuja cor oscilava entre o branco e o cinza, e na qual crepitavam raios de eletricidade. Seu tamanho era colossal: pouco menor do que um siste-ma solar, acredito.
Ainda hoje, alguns poucos descrentes entre nós insistem em dizer que aquilo nada mais foi do que algum evento cósmico, que, de algum modo, induziu a uma alucinação coletiva. Sei que estão enganados e que insistirem nessa ilusão é a maneira de protegerem suas mentes diante da grandiosidade do que compreenderam.
Não nego que contemplei aterrorizado aquele acontecimento. Pelo que pude cole-tar de outros Decepticons - pois muitos de nós ainda se negam a falar sobre isso - a nuvem parecia ter vontade e desejo próprios e, por mais inconcebível que pareça, estava olhando para nós, analisando nossas mentes e nossas estruturas, cada átomo, cada porção de pen-samento. Enquanto isso, nossos cérebros eletrônicos foram tomados por uma infinidade de visões, com riqueza de detalhes que escapam a descrição de minhas palavras. A nós foi mostrado o Universo, toda a extensão dele, e não apenas no tempo presente, mais também fragmentos de passados e futuros e sonhos dissolvidos ou emergentes de alternativas e pos-sibilidades.... Toda a grandiosidade e beleza e terror do continuum espaço-tempo, dos quânticos e infinitesimais abismos subatômicos às mais vastas e relativísticas distâncias estelares...
Alguns de nós, enlouqueceram e cometeram suicídio, outros tiveram suas mentes destruídas para sempre. Os mais prudentes, como eu, escolhemos sobreviver aquilo, ainda que vivamos deste então maculados por nosso temor da grandiosidade do Cosmo e a sen-sação de impotência por nossa insignificância diante dele.
Sempre tive um gosto quase vicioso pelas lendas, pela bizarra religiosidade de nosso povo, e talvez isto tenha me ajudado a entender e essa compreensão quase incendiou meus circuitos: aquela nuvem era uma manifestação da Grande Mente.
E, breve, ela ignorou a todos nós e voltou-se para Megatron e, de forma e com palavras que nenhum outro Decepticon pôde entender, falou com ele.
Este ponto é um pouco nebuloso para mim. Pelo que pude abstrair, sei que a Grande Mente tinha um plano próprio para o Universo e, acredito, os atos de Megatron haviam subvertido essa ordem pré-estabelecida. Sim. A Grande Mente tinha sonhos e nos-so líder os havia destruído. Ela falou com ele e disse-lhe e mostrou-lhe coisas que...Não me atrevo a conjecturar o que foi...Porém, aquilo o afetou sobremaneira.
Tão súbito quando surgira, a Grande Mente se foi (e abençoado seja Cybertron por isso). Nós estávamos abalados e sem palavras. Megatron, porém, gritava em desespero, numa língua que jamais havíamos ouvido antes (e que nunca conseguimos traduzir). Ele continuou gritando - e seu lamento nos aterrorizou - e se refugiou de volta a sua torre e seu trono e, dali por diante, pouco foi visto por qualquer Decepticon.
Por vezes, ele voltava a gritar, naquela estranha e indecifrável língua, e seus gritos abalavam nossas frágeis mentes e arrancavam pedaços de nossa já combalida coragem...
E, então, todos compreenderam que os dias de felicidade de Megatron haviam, por fim, terminado de uma forma trágica."

Parte 9: As Leis do Ocaso

"Como já disse, a partir daquela ocasião Megatron raramente foi visto. Ele trans-mitia suas ordens através dos comunicadores ou das grandes telas de vídeo espalhadas pelo planeta e todos continuavam a obedecê-lo. Não pude deixar de notar que havia algo de terrível em sua voz: estava mudada, como se um componente essencial houvesse sido ar-rancado de nosso líder.
As conquistas haviam cessado. Sob as ordens de Megatron, mantínhamos os mun-dos dominados, porém, era como se tudo tivesse se tornado...Estático...Como se o tempo houvesse detido seu fluxo e continuássemos presos àqueles horríveis, assustadores e infi-nitos momentos em que estivemos diante dos olhos da Grande Mente...
Ao contrário do que se possa pensar, não ocorreram novas revoltas. De alguma forma, nossa espécie sentia que havia chegado ao final de algo importante e mantínhamos nossas cabeças curvadas, como se não houvesse mais futuro ou qualquer coisa a frente. Era desta forma, sombria e tediosa, que nossa vida continuava.
Quanto a Megatron, sua figura soturna agora inundava nossos circuitos com pena e esse sentimento sempre foi por demais desagradável para os Decepticons, por isso nos incomodava pensar nele.
Lembro que quando aconteceu eu havia sido enviado a um dos mundos sobre nos-so controle, numa missão de rotina, apenas uma coleta de dados.
A notícia chegou de forma catastrófica para mim. Retornei a Cybertron na maior velocidade que pude, numa nave, que antes fora usada na guerra, tendo como companhei-ros de viagem outros Decepticons tão surpresos quanto eu.
Breve cheguei a capital de Cybertron, orgulho de nosso mundo, onde habitavam cinco milhões de Decepticons...E encontrei em seu lugar apenas uma monstruosa cratera de metal derretido e destroços radiativos. Cinco milhões de vítimas, nenhum sobrevivente. Demorou um pouco para entendermos o que havia ocorrido: em sua loucura, Me-gatron cometera suicídio, detonando um poderoso artefato nuclear que vaporizou a capital de nosso mundo.
Dali por diante tudo piorou, pois também estávamos enlouquecidos e sem a pre-sença e liderança de Megatron uma nova guerra civil se iniciou, com inúmeras facções Decepticons cobiçando o domínio de nossa espécie.
No meio da guerra, explodiram incontáveis revoltas nos mundos conquistados. Sem Megatron - e preocupados com nossa própria sobrevivência - desistimos deles e logo perdemos contato com as colônias, enquanto nosso próprio conflito aumentava e novos líderes (cada um deles se intitulando um novo "Megatron") alcançavam o poder para logo serem derrubados e substituídos por outros. Era o caos, com mortes por todos os lados, mas eu sentia tempos ainda mais sombrios insinuando-se por nossos horizontes. Para nossa miséria, eu estava certo.
Talvez, como um resquício da malignidade de Megatron (e eu quase podia vê-lo gargalhando de nós), descobrimos que o artefato nuclear que ele detonara provocará abalos na própria estrutura atômica de Cybertron. Ao compreender a extensão da ameaça me de-sesperei.
Juntei-me a outros, prudentes como eu, e mediamos uma difícil trégua entre as facções guerreiras para salvar nosso povo. Antigas naves de guerra foram utilizadas às pressas. Nelas colocamos todos os Decepticons que ainda viviam e partimos pelo Univer-so, em busca de um novo mundo. Era nosso êxodo.
Nos monitores da nave em que fugi, pude observar Cyberton atingir massa crítica e explodir como uma supernova. Apesar de tudo que já vivi e fiz, nunca presencie nada mais triste do que aquilo. Por não ser um orgânico, eu não tinha lágrimas...Mas, pelos Cri-adores, como desejei poder chorar naquele dia...".

Parte 10: Adendo

Nossa frota exilada aterrissou no mundo classificado como AXWY, um planeta morto, rochoso, pontilhado por ruínas de esquecidas civilizações de orgânicos, porém, rico em fontes geotérmicas, que poderiam nos suprir de energia por muitos anos.
Então as facções entreolharam-se e decidiram que a trégua já havia durado tempo demais. Breve o conflito recomeçara e nosso novo mundo foi incendiado pelo ódio, pela guerra e pela loucura de minha espécie.
Embora muitos considerem vergonhoso o que eu digo agora, levando em conta tudo o que já acontecera, eu me tornei pacifista. Reuni-me a uma pequena comunidade, formada por outros que fizeram a mesma opção, e nos retiramos para um planalto na parte mais afastada do planeta. Lá tentamos erguer uma nova civilização cybertrônica.
Porém o confronto logo nos alcançou - pois os Decepticons guerreiros nos odia-vam, nossa cidade foi reduzida a átomos e os poucos de nós que sobreviveram tornarem-se, neste novo mundo, foragidos entre um povo de exilados.
Desde então a matança apenas aumentou e não acredito que qualquer solução raci-onal possa por fim a ela.
Nos últimos tempos, tenho me ocupado com as lembranças dos dias antigos. Da mesma forma, dediquei-me a coletar e analisar dados. A conclusão a que cheguei afligiu minha já combalida mente:
Esta é uma guerra suicida e, breve, não haverá mais Decepticons vivos. Agora, eu apenas reflito e espero a extinção de minha espécie, quando faremos companhia aos Auto-bots e a todas as outra raças que, em nossa insanidade, fizemos desaparecer.
Ontem, enquanto analisava um arquivo codificado, detectei algo extraordinário: de algum modo que escapa a minha compreensão, Optimus Prime tinha algum tipo de 'plano de emergência' para salvar a humanidade caso fosse morto no Skrim-Scharrh. Tudo é um pouco nebuloso demais e não pude extrair maiores detalhes, mas de algo já posso ter certe-za:
O estratagema de Optimus funcionou e alguns milhares de humanos escaparam da Terra antes que nós eliminássemos o restante. Como aquele Autobot conseguiu fazer isto, sem que percebêssemos, não ouso conjecturar, todavia acredito que, por este momento, a humanidade deva estar procurando um novo lar entre as estrelas. Fico satisfeito com isso, pois, ao menos em uma parcela infinitesimal, esta notícia compensa o horror que foi reali-zado por nós.
Quanto a mim mesmo, decidi elaborar este documentário. Se meus cálculos estive-rem corretos - e temo que estejam - não restam mais do que cem Decepticons em AXWY, dos quais apenas três são pacifistas. Na ferocidade em que está o confronto, creio que não será necessário mais do que três rotações deste planeta para que todos nós estejamos ex-tintos.
Louvado e abençoado, porém perdido, Cybertron, em teu nome fiz esta obra e gra-vei-a em material que perdurará por uma eternidade, mesmo depois que nós tivermos pere-cido, para que, algum dia, uma outra espécie, talvez mais sábia, escute estas palavras e saiba de teus filhos, para que jamais sejas esquecido.
E, assim, termino meu relato. Peço perdão a Grande Mente e ao universo e rezo para que haja - como sonham os orgânicos - um lugar após aquilo que chamamos de mor-te, onde possamos nos juntar a amigos e inimigos e, em paz, celebrar a eternidade.
Que seja este o legado Transformer para o universo, composto por minha humilde persistência, eu, o desafortunado Decepticon que, em outras eras, foi chamado de Laserbe-ak".

Epílogo: De Volta a Zeta-7

A transmissão encerrou-se e as imagens holográficas definharam rapidamente até desaparecerem no gabinete de MK-5276.
_Quais são suas instruções, MK? - indagou a voz do computador.
MK, porém, permanecia em silêncio, como se em choque.
_ Ei, MK, o computador tá esperando...Diz alguma coisa! - instigou-a LJ-4165, na verdade impaciente e ansioso pela próxima parte de seu pequeno plano.
_Oh, claro... - falou MK-5276, ainda hesitante - Arquive isto com protocolo má-ximo de segurança e transmita cópias a todos os xeno-arqueólogos cadastrados. Ah, mar-que uma reunião com representantes do instituto para amanhã pela manhã...Deuses! Isto responde a tudo! Tudo o que sabíamos, ou melhor, pensávamos que sabíamos, mudou para sempre! Eu...
Subitamente, ela lembrou-se de LJ-4165 e voltou-se para o rapaz:
_LJ, eu não consigo imaginar como poderia te agradecer. Você faz idéia do bem que realizou hoje? Esta gravação vai promover anos de progresso em toda a nossa Xeno-arqueologia...
LJ-4165 riu, de forma maliciosa, e respondeu-lhe apontando o indicador direito para ela:
_Ah, peraí! Eu sei como você vai me agradecer sim! Os psicólogos de papai me disseram que você ficaria assim: de boca aberta, chocada e agradecida demais para me re-jeitar. E eles estão certos! Essa noite, você vai ser toda minha e vou fazer o que eu quiser! - então, fez uma pausa, para depois prosseguir - Te pego em tua casa pra jantar em duas horas! Esteja pronta, porque depois que a gente comer é que a verdadeira festa vai come-çar!
MK estava mais chocada e ofendida com ele do que podia expressar, porém a prudência aconselhava que ela concordasse, pelo menos por enquanto...
_Certo! Em duas horas, mas lá em casa, não. Me encontra aqui mesmo...
LJ-4165 soltou um grito de triunfo e foi embora saltitante, tomado por uma alegria selvagem.
Quando a porta se fechou atrás dele, o computador voltou sua atenção para MK:
_Isso é um pouco absurdo! Você não é obrigada a fazer o que ele quer! - comen-tou a voz mecânica, que soava pertubadoramente humana e feminina.
Os lábios de MK formaram um riso leve:
_E você entende o que ele quer?
_Claro! - retorquiu o computador - Tenho uma enormidade de dados sobre os se-res humanos e suas funções e, além disso, você me programou para pensar e agir de modo parecido com sua mãe - o que sempre considerei psicologicamente negativo para você.
_Pode ser... Mas - indagou MK - Você pode ler pensamentos humanos, não é?
_Sim - respondeu o computador - potencialmente, eu poderia realizar uma sonda-gem telepática num organismo humano, mas, diferente de outros modelos de minha série, não estou autorizada a isso. Os artigos 524 e 525 do Estatuto da Interação entre Inteligên-cias Artificias e Inteligências Humanas disciplinam esta questão e...
_Ei, conheço esse documento e tem algumas brechas nele...Como ser humano responsável por você ordeno que desabilite sua proibição e leia minha mente, sobre essa questão de LJ....
O computador silenciou-se, como alguém que escuta algo completamente inespe-rado, e, logo depois, apenas disse:
_Muito bem. Ordem executada.
MK, não precisou esperar mais que cinco segundos, até que o computador emitis-se o som mais aproximado que pôde de uma gargalhada humana:
_Eu não acredito...Você vai fazer isso mesmo? Pode ser perigoso para você...Pode haver represálias.
Com um leve sorriso, de plena malícia, MK devolveu a preocupação do computa-dor:
_Fique tranqüila. Vai dar tudo certo....E depois do que acabamos de assistir, não me fale em riscos...
MK começou a deixar a sala quando se voltou para o computador e ordenou:
_Separe os itens que você já sabe quais são...E, por favor, vamos manter essa história só para nós...
_Claro, MK, Claro! - respondeu o computador e, para MK, nunca aquela voz ha-via parecido tanto com a de sua mãe quanto naquele momento.
MK aprontou-se rapidamente e, ao terminar, a imagem no espelho holográfico surpreendeu-a: ora, deveria ser desta forma. Ela precisava estar o mais bonita possível para iludir LJ-4165. Seu pequeno estratagema já estava em andamento e ele nunca desconfia-ria...Na verdade, ela contava com isso para que funcionasse.
Depois ela sentou e começou a esperar.
A voz quase humana do computador interrompeu o silêncio:
_MK, você não precisa fazer isso...Era só denunciá-lo por assédio...
_Pode ser, - respondeu ela - mas, sendo filho de quem é, eu não conseguiria levar o processo adiante...E, do jeito que imaginei, vai ser mais sutil e divertido... Ei, estou sen-tindo uma dose de preocupação em sua voz?
_Claro! - respondeu o computador, após alguns instantes de mutismo - Você é a melhor programadora desse hemisfério, fez coisas com minha mente que...Bem, sinto que sou mais próxima de uma consciência humana do que qualquer outro modelo de minha série...Por exemplo, encontrei uma subrotina que você embutiu em meu sistema que... Oh, é melhor mostrar...
No momento seguinte, um facho de luz azulada começou a oscilar diante dos olhos de MK e a tomar forma, até que a imagem holográfica de uma mulher entre os trinta e os quarenta anos estava de pé, em frente a ela... Sua semelhança física com a moça era muito grande...
_Verifiquei os registros...Essa é a forma de sua mãe, não é? - indagou-lhe a ima-gem.
MK levantou-se, correu até o holograma e abraçou-a com alegria.
_Você sabe que sim...Preparei aquela sub-rotina para um momento como esse... Deuses, como sinto sua falta ! - disse MK enquanto uma lágrima caía-lhe de seu olho es-querdo.
_MK, disse a voz do holograma - enquanto retribuía o abraço, eu não sou sua mãe...Os psicólogos desaprovariam sobremaneira o que você fez...E veja só: eu nem mes-mo poderia estar gerando um holograma de luz sólida...Outra travessura sua, não é?
_É, respondeu MK, mas faz silêncio. Quero aproveitar esse momento...Olha, isso não é uma ordem: é um pedido...
_Eu...Não conseguiria chorar... - comentou a imagem.
_Consegue, sim: eu cuidei disso também! - replicou MK.
Os lábios do holograma moveram-se num sorriso terno, humano e maternal...E, logo em seguida, uma lágrima de luz congelada escorreu-lhe dos olhos até o chão metáli-co...
Alguns minutos depois, LJ-4165 voltou ao museu. Ele olhava MK deslumbrado e emudecido. Ela o cumprimentou e ambos entraram num daqueles automóveis de propulsão gravitacional. O veículo ergueu-se do solo e breve estava deslizando entre os arranha-céus de AW-72.
LJ-4165 parecia feliz, como um lobo que conseguira pular para dentro da cerca do curral das ovelhas, enquanto o pastor estava dormindo (a comparação era muito antiga, mas MK julgou-a apropriada).
Em segundos, eles aterrissaram em frente ao mais caro restaurante da capital. MK aceitou a ajuda de LJ para sair do carro e, intimamente, ele agradecia aos Deuses por ela está tão conformada e passiva. A jovem, por sua vez, apenas aguardava, pacientemente, sua idéia ser colocada em andamento:
Após o jantar, ele a arrastaria para algum apartamento ou outro canto reservado. Ele a beijaria, por certo, e era, então, que tudo iria começar:
Ser curadora do Museu de Culturas Alienígenas tinha suas vantagens. MK solici-tou que o computador separasse pelos menos quatro itens do departamento de Xeno-farmacologia. Extratos raríssimos (não disponíveis, nem no Mercado Oficial, nem no Ne-gro),utilizados para fins religiosos em algumas culturas alienígenas. Claro que separados eles não significariam muito coisa, porém, apenas MK, e, talvez, um ou dois outros xeno-arqueólogos, em todo o globo, poderiam imaginar os efeitos da combinação daqueles pro-dutos.
Ela duvidava que houvesse outro especialista que pudesse preparar aquela mistura da forma que ela fizera e - isso era a melhor parte - quando a substância atuasse num cor-po humano, dificilmente poderia ser detectada.
Obviamente, ela injetou nela mesma um antídoto para aquele preparado e sabia que o sistema de limpeza automotizado dos restaurantes evitaria que mais alguém fosse exposto aquela substância. Ninguém mais, exceto LJ-4165.
Quando a substância atingisse o corpo dele, LJ desmaiariam. Ao acordar, na ma-nhã do dia seguinte, suas memórias das últimas vinte e quatro horas teriam sido apagadas e ele apresentaria os sintomas normais de uma violenta ressaca. Talvez lhe dissessem que ele fora visto com MK e ele viria a supor que algo entre eles haveria acontecido. Não importa-va realmente. Um efeito secundário da droga inibiria o apetite sexual do rapaz por meses, nos quais MK poderia respirar tranqüila. Quando esse período terminasse talvez ele voltas-se seus desejos para outra moça e a jovem poderia seguir sua vida normal. De qualquer forma, funcionaria.
MK apenas riu intimamente. Uma hora e meia atrás, ela havia colocado aquela mistura de substâncias em seu batom, o mesmo que estava nos seus lábios, os quais o mali-cioso jovem tanto elogiava. E, em mais alguns minutos, LJ a levaria dali, par algum outro lugar e a beijaria...
LJ-4165 pediu ao garçom que trouxesse a comida - não esquecendo de frisar que era o prato mais caro do restaurante - virou-se para MK, e, esquecendo da sutileza, fez um comentário pornográfico para ela.
MK ignorou. Ela lembrou-se de Optimus Prime, Megatron, Cybertron e Laserbe-ak, ergueu um brinde silencioso a eles, levou a taça até os lábios e divertiu-se ao imaginar o que aconteceria com LJ-4165...

FIM

Envie sua crítica ou opinião sobre este conto e ela será publicada aqui!

Seu Nome
E-mail
Nome da Fanfic:        Nota
Comentários
 


Volta para Fanfics