Vincent Price


VINCENT PRICE

Texto escrito por Renato Rosatti



Em 26 de outubro de 1993 o cinema de horror perdeu um dos seus maiores artistas, o ator Vincent Price, que morreu aos 82 anos de idade com problemas de câncer no pulmão.
Ao longo de sua bem sucedida carreira cinematográfica, ele realizou mais de 50 filmes, sendo aproximadamente 40 deles no gênero fantástico, e dentro de sua obra encontram-se diversos clássicos absolutos como "Museu de Cera" (1953), "A Mosca da Cabeça Branca" (58), "O Corvo" (63), ou "O Abominável Dr. Phibes" (71).




Price tornou-se um dos grandes expoentes do cinema de horror e ficção científica de todos os tempos e juntou-se ao magnífico time de astros imortais como Bela Lugosi (1882 - 1956), Boris Karloff (1887 - 1969), John Carradine (1906 - 1988), Peter Cushing (1913 - 1994), e Christopher Lee (1922), este último o único ainda vivo e na ativa, como pudemos conferir nos recentes "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" e "Star Wars: Episódio II - Ataque dos Clones".
Vincent Price nasceu em 1911 em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, sendo filho de uma família empresarial rica. Iniciou sua carreira artística no teatro e teve sua estréia no cinema com "Service Deluxe" (38), seguido por sua estréia no gênero que o consagrou, o horror, com "Tower of London" (39), ao lado de Boris Karloff e Basil Rathbone, onde apareceu brevemente como um personagem que morre afogado em um barril de vinho.




Inicialmente escalado para ser um ator sedutor e romântico, devido a sua inegável classe natural, ele acabou encontrando o seu real espaço como um refinado vilão de horror.
Na década de 60, conheceu o lendário produtor/diretor Roger Corman e sua parceria com esse mito da produção "B" fantástica resultou em inúmeros filmes clássicos, a maioria baseados na literatura macabra e sombria de Edgar Allan Poe, como "A Queda da Casa de Usher" (60), "O Poço e o Pêndulo" (61), "Muralhas do Pavor" (62), "O Corvo" (63), este baseado no célebre poema homônimo e com a participação de Jack Nicholson em início de carreira, "A Máscara Mortal" (64), "The Tomb of Ligeia" (64), e "O Ataúde do Morto-Vivo" (69), este sendo o primeiro trabalho ao lado de Christopher Lee.
Em 1963, também com Roger Corman, Price fez o primeiro filme baseado na literatura indizível de Howard Philips Lovecraft, com "O Castelo Assombrado" (The Haunted Palace), inspirado na famosa história "O Caso de Charles Dexter Ward", que faz parte do universo ficcional dos "Mitos de Cthulhu".



Vincent Price também interpretou, ao longo de sua carreira, inúmeros cientistas loucos em meio as suas invenções e experiências macabras, como podemos ver, entre outros, no divertidíssimo e típico sessão da tarde "Robur, o Conquistador do Mundo" (61), com roteiro do especialista Richard Matheson baseado em obra de Julio Verne, onde fez um pacifista que inventa uma poderosa fortaleza voadora em pleno 1868, com o objetivo de destruir os armamentos militares da época, acabando assim com as guerras a força, e passando com isso a ser ele o vilão da história.
No início da década de 70 o ator associou sua imagem ao psicopata desfigurado Dr. Phibes, numa série de 2 filmes clássicos dirigidos por Robert Fuest, "O Abominável Dr. Phibes" (71) e "A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes" (72). Ele interpretou um aristocrático "serial killer" que dizimava suas vítimas com classe e inteligência singulares, mostrando como deve ser exercido esse nobre ofício a outros psicopatas inferiores como Jason Voorhees ("Sexta-Feira 13") ou Michael Myers ("Halloween").
Outro filme dentro desse estilo, e um dos mais preferidos pessoalmente por Price, foi "As Sete Máscaras da Morte" (73), onde fez um ator shakespereano que simula suicídio para poder se vingar de seus algozes críticos, chacinando-os com maestria e sutileza.



Apesar de sua imagem macabra e necrofílica no cinema, poucos fãs sabem mas Price foi na vida real um "expert" colecionador de obras de arte e um famoso mestre "gourmet", publicando inclusive vários livros sobre arte e culinária, e sendo muito respeitado dentro desse meio.
Suas performances como vilão de horror são impagáveis e seu estilo irônico e humorístico pode ser apreciado em obras primas do humor negro como "Muralhas do Pavor" (62), "O Corvo" (63) e "Farsa Trágica" (63), contracenando com atores de um nível de Peter Lorre (engraçadíssimo), Boris Karloff e Basil Rathbone, que juntos foram responsáveis por várias das mais divertidas sequências de toda a história do cinema de horror com elementos de humor. Como em "Farsa Trágica", na cena onde Price (um dono de funerária a caminho da falência) tenta envenenar Rathbone (proprietário do imóvel o qual Price está atrasado com o aluguel há meses).
Price teve passagens marcantes também pela televisão, como na série "Batman" (1966), interpretando o impagável vilão "Cabeça de Ovo" ou como o apresentador da série "Mystery Theatre" por vários anos. E emprestou sua voz cavernosa para, entre outros, um discurso de horror no videoclip "Thriller" de Michael Jackson, onde o popular cantor se transformou em lobisomem numa noite de lua cheia (sempre o velho clichê...).



A partir dos anos 80 suas participações foram se tornando cada vez mais raras e escassas, e geralmente sua presença, mesmo que pequena, é que salvava as produções infinitamente inferiores às das décadas anteriores. O destaque desse período foi "A Mansão da Meia-Noite" (83), principalmente por ser o único filme na história a reunir os monstros sagrados Price, Christopher Lee, Peter Cushing e John Carradine juntos, e "Banho de Sangue na Casa da Morte" (85), uma comédia onde Price interpretou um sinistro satanista envolvido em rituais sangrentos.
Seu último trabalho foi com a belíssima fantasia "Edward Mãos de Tesoura" (90), de Tim Burton, onde interpretou o que de melhor ele fazia em sua carreira: um excêntrico cientista "louco" recluso em sua enorme e gótica mansão. Aqui ele "cria" um jovem garoto (Johnny Depp), mas morre antes de substituir as tesouras que lhe servem de mãos.
Price aparece em apenas magistrais 5 minutos e foi o suficiente para um merecido encerramento com chaves de ouro à sua extraordinária carreira de mais de 50 anos, entre teatro, televisão e cinema. Vincent Price permanecerá imortal através de seus fascinantes e incontáveis filmes, e inesquecível por suas irônicas interpretações sempre lembrando lordes aristocráticos com sua classe única, além é claro, do seu imponente e inconfundível vozeirão gutural, eternamente ligado aos seus macabros personagens do cinema. Caracterizações que foram alguns dos melhores vilões da história do horror. Price não morreu e seu fantasma continuará vagando entre nós através de seus filmes de puro entretenimento.





DEZ ANOS SEM PRICE

Texto escrito por E.R.Corrêa

"O homem nasce para viver. Ele cria a vida. Ele venera a vida. Ele adora a vida. Ele cria a vida nova. Mas lá no fundo de nossas almas existe um instinto que deseja a morte. Fica fácil quando ela chega. Não é muito forte não, esse instinto - só é preciso uma vez! Foi isso que nós vimos na escuridão; é o fantasma adormecido que nós despertamos, e criamos, e vestimos de preto! Um fantasma se alimentando da morte, criando a morte e exultando na morte!"
Vincent Price como "Dr. Morte", no filme "A Casa do Terror" (1974)

Em outubro de 2003, mais especificamente no dia 26, completará dez anos da morte de Vincent Price, um dos maiores atores de todos os tempos.
Como um fã incondicional do fantástico desde molecote, em todas as suas manifestações artísticas e culturais, devo dizer que nutro uma paixão especial pelos muitos e importantes atores que fizeram a historia do gênero. Lon Chaney, Bela Lugosi, Boris Karloff, John Carradine, Peter Cushing, Christopher Lee, Basil Rathbone, Donald Pleseance, são apenas alguns representantes dessa famosa e imensa galeria de astros do cinema de horror pela qual dedico grande parte de meu tempo livre, seja assistindo a um filme, lendo, desenhando, escrevendo...; mas, devo confessar, Price ocupa um lugar especial em minha admiração. Não sei dizer especificamente o porquê. Sempre o admirei e isso é tudo.
É impossível vê-lo em cena sem sentir uma espécie de comoção, meio dividida entre o dramático e o divertido (qual de seus fãs não se emocionou de verdade diante do simbolismo trágico que representou a morte de seu personagem no excelente "Edward Mãos de Tesoura", 1990, de Tim Burton?). Sofisticado, dono de uma pose aristocrática inigualável, exímio fazedor de caretas e gesticulações impagáveis, canastrão nato (e consciente disso), deliciosamente autoparódico, quase dois metros de pura energia cinematográfica, Price foi o que de melhor e mais original o cinema de horror teve a oferecer a seus amantes. É claro, isso é opinião, e não pretendo ficar expondo aqui, por isso mesmo, o porquê de todas essas minhas impressões. Mas posso dizer com certa propriedade que Price foi o vilão por excelência. Aquele que, apenas com o franzir de sobrancelhas, ou com a distorção maliciosa do sorriso, deixava bem claro suas intenções, invariavelmente maléficas. Tente imaginar o divertidíssimo "Dr. Phibes", com seu vozeirão gutural e característico, interpretado por outro ator - simplesmente não dá; ou mesmo o famoso vilão "Cabeça de Ovo", do antigo seriado do "Batman". Fora do foco das câmeras, entretanto, Price era o verdadeiro gentleman. Formado em História da Arte pela Universidade de Yale e desde garoto apaixonado por pintura, transformou a confortável casa que tinha em Sunset Hills (Los Angeles) numa imensa galeria de arte, aberta à visitação; o dinheiro que arrecadava ele sempre o doava a instituições de caridade (ele dizia que ganhava mais dinheiro dando palestras sobre pintura do que atuando). Já foi dito que Price era um verdadeiro cavalheiro que tinha pouco ou nada a ver com seus personagens, mas às vezes fazia brincadeiras sutis e bem sacadas com essa sua postura (numa das cenas de morte no espetacular "O Abominável Dr. Phibes", depois de drenar todo o sangue de um dos incompetentes médicos que deixaram sua amada esposa Victoria morrer, o desfigurado psicopata se retira de cena, como um cavalheiro e, momentos depois, retorna para observar melhor um belíssimo quadro na parede... Isso é que é elegância!). Outro hobby que cultivava com paixão, além da pintura, era o de gourmet: diziam que na cozinha ele era um terror... de bom!



Nascido em 27 de Maio de 1911 em Missouri, nos Estados Unidos, Vincent Price proveio de uma família rica, cercada por um ambiente cultural acima dos padrões e envolta em tradições antigas à moda européia. Não foi difícil para ele, pois, abraçar desde cedo a carreira de artista. Depois de passar pelo teatro, como é de praxe, pisa forte no cinema e ali se estabelece como um dos nomes mais importantes desde então. Sua trajetória é longa e inclui clássicos como "Museu de Cera" (1953), "A Mosca da Cabeça Branca" (1958), "A Casa Amaldiçoada" (1958), "Força Diabólica" (1959), além do criativo ciclo de adaptações de obras de Edgar Allan Poe dirigidas por Roger Corman na década de 1960, como "O Solar Maldito" (1960), "Mansão do Terror" (1961), "Muralhas do Pavor" (1962), "O Castelo Assombrado" (1963), entre outros que preencheram essa fase que talvez tenha sido a mais fecunda do ator.
Nos anos 1970, porém, viriam mais algumas pérolas impagáveis que tornaram sua filmografia ainda mais rica, como "O Grito da Feiticeira" (1970), "O Abominável Dr. Phibes" (1971), "A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes" (1972), "As Sete Máscaras da Morte" (1973), "A Casa do Terror" (1974), entre muitos outros (neste último, ao lado do "cavalheiro do terror" Peter Cushing, Price faz deliciosas e divertidas brincadeiras com a própria carreira, numa autoparódia clássica; e o curioso é a melancólica canção que preenche os créditos finais, cantada adivinhem por quem?). Na década de 1980 se destacou o espetacular "Mansão da Meia Noite" (1983), que reúne, num só fôlego, os gigantes Peter Cushing, John Carradine, Vincent Price e Christopher Lee (o único ainda vivo). Esse filme, repleto de clichês e situações previsíveis, na verdade foi uma espécie de homenagem a esses atores que são a própria história do gênero horror no cinema; e foi o único que os uniu numa mesma produção.



Acompanhando sua longa trajetória no cinema é fácil perceber que Price foi um ator muito diversificado, até mesmo fora do convencional; para se ter uma idéia, seu único personagem que teve uma "seqüência de filmes" foi o carcomido e excêntrico psicopata "Dr. Anton Phibes", precursor dos hoje famosos e estúpidos "serial killers", na mais irreverente e criativa história de amor de todos os tempos. Ele também não foi apenas vilão; em muitas películas, por exemplo, ele encarnou o mocinho da trama, ou mesmo o herói. É o caso dos citados "A Mosca da Cabeça Branca" e "Edward Mãos de Tesoura", além do clássico "Mortos que Matam" (1964), onde aparece como o último representante humano numa sociedade futurista dominada por vampiros mutantes. No nostálgico e emocionante "As Baleais de Agosto" (1987), ao lado das veteranas Lillian Gish, Ann Sothern e Bette Davis, Price brinca com a velhice e mostra porque, mesmo durante os últimos anos de sua carreira, foi sempre homenageado e escalado por vários diretores para fazer importantes pontas em muitas produções. Na fatídica semana de outubro de 1993, quando, através dos jornais, soube da morte do ator (provocada por câncer no pulmão - ele era um fumante inveterado), fiquei profundamente triste, mas não tanto quanto deveria ter ficado; na época, embora eu já fosse um fã do ator e mais ou menos por dentro de sua importância para o cinema, conhecia muito pouco o seu trabalho, talvez uma pequena coletânea televisiva de meia dúzia de filmes. Mesmo assim fiquei triste. Ainda hoje guardo com cuidado alguns dos recortes de jornais que falavam ligeiramente de sua morte, acompanhada passo a passo por parentes próximos e pela sua fiel esposa Coral Browne. Desde então, como um tributo, venho colecionando tudo que se refere a ele.
Há alguns anos atrás, fazendo uma de minhas costumeiras tournées pelos sebos e bancas de São Paulo, entrei numa popular loja de revistas novas e usadas no centro da cidade e encontrei uma edição da famosa "Cinefantastique" (a versão americana) quase que inteirinha dedicada a ele; na época o dólar não estava esse absurdo que está hoje, mesmo assim paguei, ainda me lembro, mais de trinta reais pela revista. Completíssima, repleta de fotos do ator e posters de seus principais filmes, essa preciosidade me fez tropeçar muito nas calçadas lotadas de sampa; não sei como não fui atropelado... Uma vez também tentei importar diretamente dos Estados Unidos um exemplar do livro "The Completes Films of Vincent Price", de autoria de Lucy Chase Williams, considerada a melhor biografia do ator, mas não consegui por causa de uma dúzia de percalços burocráticos típicos desse país miserável. Mas agora temos a internet à disposição.



No ano seguinte à morte de Price o cinema de horror perdeu outro de seus maiores nomes, o inglês Peter Cushing, seu fiel parceiro em muitas produções, mas isso, vocês sabem, é uma outra história... (louca para ser contada!).
Mas isso não importa agora. O que importa é que a obra de Price (tanto quanto a de Peter Cushing) está aí e é imortal. Seus trabalhos são legados incalculáveis para o gênero, e, como disse certa vez num artigo biográfico o editor Renato Rosatti (dos fanzines Juvenatrix, Astaroth e Carnage): "Price não morreu e seu fantasma continua vagando através de seus filmes a nos aterrorizar (e divertir)". E muito!





PRINCIPAIS FILMES DE VICENT PRICE


Artigos